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Tecnologia em Portugal em 2026: mais investimento, mas concentrado em poucas empresas

tech2026-08-21 · 4 min read · 4 reads

O ecossistema tecnológico português vive um momento de contrastes em 2026. O investimento nas startups cresceu 35 por cento no primeiro trimestre, mas chega a menos empresas devido às megarrondas. Ao mesmo tempo, Portugal tem scale-ups de inteligência artificial de referência mundial, mas apenas 11,

O ecossistema tecnológico português atravessa em 2026 um momento marcado por fortes contrastes. Por um lado, o investimento nas startups nacionais continua a crescer em valor. Por outro, esse capital chega a um número cada vez menor de empresas. A este panorama junta-se um paradoxo: Portugal tem empresas de inteligência artificial de referência mundial, mas a adoção interna permanece reduzida.

O investimento cresce mas concentra-se

Segundo os dados disponíveis, o investimento nas startups portuguesas registou um crescimento assinalável em valor. No primeiro trimestre de 2025, foram investidos cerca de 77 milhões de euros, distribuídos por 27 rondas de financiamento. Já no primeiro trimestre de 2026, o montante subiu para 104 milhões de euros, mas repartido por apenas 16 rondas.

Estes números traduzem-se num aumento de 35 por cento no capital investido, acompanhado, no entanto, por uma queda de 41 por cento no número de operações. Por outras palavras, entra mais dinheiro no ecossistema, mas esse dinheiro chega a menos empresas. Esta tendência levanta preocupações quanto ao financiamento das fases mais iniciais das startups.

As megarrondas dominam

A concentração do investimento explica-se sobretudo pela força das chamadas megarrondas. No primeiro trimestre de 2026, duas operações dominaram o mercado português. O banco Goldman Sachs investiu 58 milhões de euros na Nearing, do grupo Visabeira, enquanto a C2 Capital aplicou 18 milhões de euros na Everbio, num total muito significativo para o período.

Em conjunto, estas duas megarrondas representaram cerca de 73 por cento de todo o investimento realizado em Portugal no primeiro trimestre de 2026. Segundo Fernando Ferreira, sócio da Ventures.eu, o cenário foi de um investimento maior, mas concentrado em poucas empresas, uma dinâmica que deixa menos capital disponível para os projetos em fase inicial.

O contexto europeu

A tendência portuguesa reflete um movimento mais amplo à escala europeia. No conjunto da Europa, o investimento em startups aumentou de 17,1 mil milhões de dólares no primeiro trimestre de 2025 para 25,7 mil milhões de dólares no mesmo período de 2026. Ainda assim, o financiamento nas fases de seed e pre-seed recuou cerca de dois mil milhões de dólares.

Este comportamento confirma que os investidores estão cada vez mais seletivos. A preferência por grandes rondas em empresas já consolidadas, em detrimento das fases iniciais, é uma característica comum tanto ao mercado português como ao europeu. Para as jovens startups, este contexto torna mais difícil garantir o capital necessário para arrancar.

O paradoxo da adoção

Portugal tem scale-ups de inteligência artificial de nível mundial, mas a adoção nas empresas nacionais permanece baixa. (imagem ilustrativa)
Portugal tem scale-ups de inteligência artificial de nível mundial, mas a adoção nas empresas nacionais permanece baixa. (imagem ilustrativa)

Apesar da vitalidade do ecossistema, existe um paradoxo evidente na relação de Portugal com a inteligência artificial. De acordo com dados do Eurostat, apenas 11,5 por cento das empresas portuguesas utilizaram inteligência artificial em 2025. Este valor fica bastante abaixo da média da União Europeia, que se situou nos 20,0 por cento no mesmo ano.

Este atraso na adoção contrasta fortemente com a qualidade das empresas tecnológicas nacionais. Portugal possui scale-ups de inteligência artificial reconhecidas a nível mundial, mas grande parte do tecido empresarial ainda não incorporou estas ferramentas. Reduzir esta distância será um dos grandes desafios para a competitividade da economia portuguesa nos próximos anos.

As scale-ups de referência

No que diz respeito às empresas de destaque, Portugal conta com vários nomes de peso. Entre eles encontram-se a Feedzai, especializada na deteção de fraude financeira e já com estatuto de unicórnio, a Unbabel, focada na tradução assistida por inteligência artificial, e a Sword Health, dedicada à fisioterapia digital e também considerada um unicórnio nacional.

A esta lista juntam-se ainda outras empresas relevantes, como a Talkdesk, uma plataforma de centros de contacto na cloud, e a Defined.ai, especializada em dados de treino para sistemas de inteligência artificial. O ecossistema nacional organiza-se em três grandes categorias, que incluem scale-ups de produto, consultoras de dados e parceiros de implementação para pequenas e médias empresas.

Apoios e desafios

Para estimular a adoção da tecnologia, existem apoios financeiros importantes. O Plano de Recuperação e Resiliência, conhecido pela sigla PRR, cobre até 75 por cento dos projetos de adoção de inteligência artificial, sob a forma de subvenções não reembolsáveis para as empresas elegíveis. Trata-se de um incentivo relevante para acelerar a transformação digital do país.

No entanto, o setor enfrenta também desafios significativos no plano do financiamento. Duas fontes importantes de apoio estão a sofrer alterações. Os benefícios fiscais associados ao regime SIFIDE estão a chegar ao fim, enquanto o investimento através dos vistos gold diminuiu após as mudanças introduzidas na lei da nacionalidade, o que gera alguma incerteza.

Em síntese, o ano de 2026 revela um ecossistema tecnológico português dinâmico, mas desigual. O crescimento do investimento convive com uma forte concentração em poucas empresas, e a excelência das scale-ups nacionais coexiste com uma baixa adoção de inteligência artificial no tecido empresarial. Os dados citados provêm de fontes como o Eurostat, a Ventures.eu e diversas análises do setor.

Ana Pereira
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Ana Pereira
2026-08-21 · 4 min read · 4 reads
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