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IA portuguesa resiste à saída da Unbabel: consórcio liderado pela Sword Health mira 150 milhões em exportações
O Center for Responsible AI, a maior agenda mobilizadora tecnológica do PRR, passou a ser liderado pela Sword Health depois da venda da Unbabel e mantém uma execução acima dos 85 por cento, com 19 produtos e uma meta de 150 milhões de euros em exportações até ao final de 2026.
O maior consórcio de inteligência artificial alguma vez montado em Portugal sobreviveu à saída do seu rosto mais conhecido. O Center for Responsible AI, que era liderado pela Unbabel, passou a ser comandado pela Sword Health depois de a primeira ter sido vendida a capital norte-americano, e prepara agora uma meta de 150 milhões de euros em exportações, na sua maioria globais, até ao final de 2026.
O projeto é a maior agenda mobilizadora dedicada à tecnologia no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Ao longo de três anos e meio conta com um investimento total próximo dos 76 milhões de euros, dos quais cerca de 49 milhões são fundos públicos do PRR e aproximadamente 27 milhões correspondem a capital próprio dos membros do consórcio.
A dimensão do ecossistema envolvido explica a ambição. O consórcio reúne uma dezena de startups, incluindo dois unicórnios, oito centros de investigação, uma sociedade de advogados e vários líderes de indústria nas áreas das ciências da vida, do turismo e do retalho, todos a trabalhar em torno do desenvolvimento de inteligência artificial de forma responsável.
A saída da Unbabel e a passagem de testemunho
A Unbabel, especializada em operações de linguagem assistidas por IA, liderou o consórcio desde o arranque, mas acabou comprada em agosto de 2025 pela norte-americana TransPerfect, a maior fornecedora mundial de soluções linguísticas. A queda abrupta do valor da tradução automática, muito por culpa dos grandes modelos de linguagem, tornou o negócio insustentável no formato anterior.
A liderança passou então para a Sword Health, ainda em agosto de 2025, com o anúncio público a ser feito em outubro. Paulo Dimas, que dirige o Center for Responsible AI, resumiu o choque de forma direta ao afirmar que o valor da tradução caiu dez vezes, cem vezes, e que o projeto foi apanhado por essa descida repentina do mercado.
A transição correu sem rutura porque o consórcio foi desenhado com redundância desde o início. A existência de dois grandes líderes, pensada precisamente para garantir resiliência caso um deles falhasse, permitiu que a saída da Unbabel não travasse a execução dos trabalhos nem colocasse em risco os fundos europeus já comprometidos com o programa.
150 milhões em exportações e execução elevada
Apesar da turbulência, os números de execução mantêm-se altos. Em meados de 2026 o consórcio apresentava uma taxa de execução técnica e financeira situada perto dos 87 por cento, um valor considerado elevado para uma agenda desta escala e que coloca o projeto em condições de cumprir as metas antes do encerramento do financiamento do PRR.
O grande desafio que resta é comercial, e não técnico. Paulo Dimas reconheceu que o nível de execução, tanto técnico como financeiro, é bastante elevado, e que o que ainda falta é sobretudo a parte de ir para o mercado, ou seja, transformar os modelos e protótipos desenvolvidos em modelos de negócio sustentáveis e escaláveis à escala internacional.
Os produtos que já chegaram ao mercado

A saúde é a frente mais visível do consórcio. A telereabilitação com IA da Sword Health reduziu o tempo de acesso a fisioterapia no Hospital de São João, no Porto, de cerca de dois anos para dez dias, uma quebra de 97 por cento. A estes juntam-se um assistente de consulta da Priberam e o Halo, que devolve a voz a doentes com patologias neurodegenerativas como a esclerose lateral amiotrófica.
Fora da saúde, o consórcio soma casos concretos noutros setores. No turismo, a solução da Youverse reduziu em cerca de 20 por cento o tempo de check-in e está instalada em mais de 30 hotéis do grupo Pestana. No retalho, a Visor.ai automatiza o agendamento de vacinas em farmácias, com 99 por cento das chamadas tratadas por IA, enquanto a NeuralShift poupa aos advogados perto de oito horas por semana em pesquisa jurídica.
Porque é que isto importa
O caso do Center for Responsible AI ganha peso num momento em que o investimento em startups portuguesas se concentra em cada vez menos empresas. No primeiro trimestre de 2026, o número de rondas caiu de 27 para 16 face ao período homólogo, ainda que o valor investido tenha subido de 77 para 104 milhões de euros, com duas operações a absorverem sozinhas 73 por cento do total.
Nesse contexto, um consórcio capaz de manter 19 produtos em desenvolvimento e de gerar receita de exportação funciona como uma prova de resistência para a ambição portuguesa na inteligência artificial. Com a Sword Health ao leme e o prazo do PRR a aproximar-se, os próximos meses vão mostrar se Portugal consegue transformar a investigação financiada por fundos públicos em produtos vendáveis ao mundo.





