Ana PereiraVIEW PROFILE →
Deucalion: o supercomputador de Guimarães que é o motor secreto da inteligência artificial soberana de Portugal
Longe dos holofotes das startups, um dos computadores mais poderosos de Portugal trabalha em Guimarães. O Deucalion, parte da rede europeia EuroHPC, fornece a força de cálculo que treina a Amália, o modelo de IA soberano do país. Explicamos o que é este gigante e por que a soberania computacional im
Quando falamos do sucesso tecnológico de Portugal, o nosso pensamento voa quase sempre para as startups de Lisboa e do Porto ou para os grandes centros de dados. No entanto, uma das peças mais importantes de todo este ecossistema trabalha discretamente na cidade de Guimarães, longe do brilho mediático, mas com uma potência capaz de mover montanhas de dados.
Um gigante escondido no Minho
Estamos a falar do Deucalion, que é nada mais nada menos do que um dos supercomputadores mais poderosos e importantes de todo o território nacional. Esta autêntica maravilha da engenharia informática encontra-se instalada na zona de Azurém, em Guimarães, representando um dos maiores investimentos que o país já fez na área da chamada computação de alto desempenho.
Um supercomputador como este não é, obviamente, um computador vulgar como aquele que temos em casa ou no escritório para tarefas do dia a dia. Trata-se de uma máquina colossal, composta por milhares de processadores a trabalhar em conjunto e em paralelo, capaz de realizar num único segundo cálculos que a um computador normal levariam muitos e muitos anos.

O coração da Amália
A grande questão que se impõe é para que serve, na prática, tamanha capacidade de processamento instalada em solo português. A resposta mais fascinante está diretamente ligada à ambição do país em ter a sua própria inteligência artificial, pois é o Deucalion que fornece a força bruta de cálculo necessária para treinar e operar um grande modelo de linguagem.
Este modelo tem o nome de Amália e representa a aposta de Portugal numa IA verdadeiramente soberana e adaptada à nossa realidade. O projeto partiu de um modelo europeu de base, conhecido como EuroLLM, que foi depois profundamente enriquecido com uma vasta quantidade de dados específicos da língua portuguesa europeia, tornando-o muito mais competente no nosso idioma.
O trabalho de aperfeiçoamento não ficou por aí, pois os investigadores foram muito mais longe para tornar a ferramenta verdadeiramente completa e moderna. Ampliaram a sua capacidade de contexto, adicionaram suporte multimodal que lhe permite compreender não só texto mas também imagens, e construíram robustos sistemas de segurança e avaliação, e é precisamente aqui que reside a sua importância estratégica.
Porque é que a soberania computacional importa
Poder-se-ia questionar por que motivo um país como Portugal precisa de gastar tantos milhões a construir a sua própria máquina, em vez de alugar poder de computação a gigantes estrangeiros. A resposta reside num conceito cada vez mais crucial na geopolítica atual, que é o da soberania computacional e tecnológica de uma nação face ao exterior.
Depender exclusivamente de infraestruturas de outros países ou de grandes empresas privadas para uma tecnologia tão fundamental acarreta riscos evidentes e limitações consideráveis. Ter o seu próprio supercomputador significa que Portugal controla os seus dados mais sensíveis, define as suas próprias prioridades de investigação e não fica refém das decisões, dos preços ou das regras impostas por terceiros.
Uma peça do puzzle europeu
Importa ainda sublinhar que o Deucalion não é uma ilha isolada, mas sim uma peça integrada num esforço muito mais amplo e ambicioso à escala continental. Esta máquina faz parte de uma vasta rede europeia de supercomputadores, um projeto conjunto que visa dotar o velho continente das capacidades de cálculo necessárias para competir de igual para igual com as grandes potências mundiais.
Ao acolher uma destas infraestruturas de ponta no seu território, Portugal afirma-se como um parceiro credível e um contribuinte ativo para a autonomia tecnológica de toda a Europa. Esta cooperação permite partilhar custos e conhecimento, garantindo que mesmo os países de menor dimensão possam ter acesso a ferramentas que, de outra forma, estariam completamente fora do seu alcance financeiro.
O futuro que se constrói em silêncio
No fundo, a história do Deucalion é a prova de que a verdadeira revolução tecnológica nem sempre acontece nos palcos iluminados das grandes conferências. Muitas vezes, ela constrói-se em silêncio, dentro de salas refrigeradas cheias de servidores, onde o zumbido constante das máquinas alimenta os sonhos de um país inteiro em matéria de inovação.
Enquanto olhamos com admiração para as aplicações de IA que usamos no telemóvel, vale a pena lembrar que por detrás delas existe sempre uma infraestrutura física colossal a suá-la. O supercomputador de Guimarães é o motor silencioso mas poderoso que garante que Portugal não seja apenas um consumidor de tecnologia, mas também um verdadeiro criador do seu próprio futuro digital.






